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Ler é chato. Será?

FONTE: Posted on 23/01/2010 by Revista Espaço Acadêmico 17 por Jaime Pinsky*

A idéia de que livro é chato só pode partir de quem não sabe o prazer que a leitura proporciona O tempo histórico não tem um compromisso muito grande com o tempo cronológico, ou mesmo o tempo psicológico: décadas no Egito dos faraós podem corresponder a anos no período da expansão ibérica ou meses do século XXI. A percepção da velocidade do tempo histórico decorre do ritmo dos acontecimentos, assim como da rapidez dos meios de transportes e comunicações. Talvez por isso, sempre que estamos em algum local tranqüilo, geralmente no interior, somos tentados a dizer que ali as coisas não acontecem e que é como se estivéssemos em pleno século XIX. É possível que, para evitar a idéia de que possamos ser vistos como retrógrados, ou fora do nosso tempo, busquemos acelerar tudo: músicas não podem ser lentas, filmes buscam ritmos alucinantes e, se não tiverem dois mortos por minuto de projeção, em média, são considerados acadêmicos. Propaga-se a idéia idiota que tudo que não é muito veloz é chato. O pensamento analítico é substituído por ‘‘achados’’, alunos trocaram a investigação bibliográfica por informações superficiais dos sites ‘‘de pesquisa’’ pasteurizados, textos bem cuidados cedem espaço aos recados sem maiúsculas e acentos dos bilhetes nos correios eletrônicos. O importante não é degustar, mas devorar; não é usufruir, mas possuir apressadamente. O tempo, o tempo correndo atrás. Não que eu queira fazer a apologia da lentidão e da ineficiência, mas um bom concerto é feito tanto de bons allegros quanto de dolentes adágios. Além disso (e Charles Chaplin já percebia isso no início do século XX, em Tempos Modernos), ser humano é dominar a máquina e não ser por ela dominado. E aí, a meu ver, se estabelece uma das principais distinções entre ler e ver televisão. Você pega o livro, olha a capa, a contracapa, folheia sensualmente suas páginas e escolhe, livremente, aquela que quer ler. Pode pular pedaços, começar pelo fim, reler várias vezes trechos que amou, para decorar, ou que odiou, para criticar. Desde que seja seu, você pode escrever no livro (para isso ele tem espaço em branco): livro rabiscado é sinal de leitura atenta. Nada como retomar um livro lido anos atrás e ler nossas próprias notas: se forem ingênuas, rimos com a condescendência de quem cresceu; se forem brilhantes, nos preocupamos com nossa estagnação. Você estabelece o próprio ritmo de apreensão do escrito, seja ele ciência, seja ficção. Tantas vezes me furtei lendo lentamente o final de um livro pelo qual me apaixonara e do qual não queria me separar… Já a telinha é autoritária. Ela começa o assunto quando bem entende, faz as pausas que quer, inserindo as propagandas que deseja, determina o ritmo, diz quando e para onde devo olhar. Se não estou no poder, então, é pior ainda. Tenho que ver jogo de time de que não gosto, pedaço de novela babaca, entrevistas sem sentido, assassinatos sem conta, tudo num volume superior ao que eu suporto, mas que não tenho como regular, pois estou sem o controle remoto nas mãos. Mesmo quando vejo um vídeo ou um DVD, em que posso controlar algumas dessas variáveis, lido com o personagem e a paisagem imaginados por outro, emboto a minha imaginação e me curvo diante de heróis e mocinhas prontos e iguais para todos, enquanto, no livro, cada um sonha como quiser e puder. Não é por outra razão que dificilmente gostamos dum filme baseado em livro que já lemos, mesmo quando a película é de boa qualidade como O Nome da Rosa ou Vidas Secas. Antes que alguém pense que sou contra o cinema, ou até a televisão, devo dizer que isso não acontece, mas é que ando mesmo um pouco preocupado. Já não há mais quase nenhum consultório, laboratório e até sala de espera em prontos-socorros de hospitais que não tenham a sua televisão. E, o que é pior, ligada. O infeliz chega quebrado, estropiado, ou apenas dolorido, e se lhe impinge humor chulo, falsas ‘‘pegadinhas’’, loiras igualmente falsas, com síndrome de eternas adolescentes, de botinha e coxas de fora, animando crianças de olhares perdidos, conversas de pessoas confinadas que não têm o que dizer, entrevistas com pessoas que estiveram confinadas e que continuam sem ter o que dizer, e por aí afora. A sala tem pouca iluminação, já nem sequer tem aquelas revistas semanais atrasadas. A luz que falta e o ruído que sobra impedem que aqueles que trouxeram seus livros possam ler. As pessoas olham para a telinha, olham-se umas às outras e à sua própria condição. Com um livro na mão poderiam estar viajando, sonhando, aprendendo, conhecendo gente e lugares interessantes, idéias fascinantes, desbravando, questionando, maravilhando-se. Contudo, continuam sentadas olhando umas para as outras e para a telinha que cobra o tributo da dependência, da elaboração de frases feitas e idéias gastas. A idéia de que livro é chato só pode partir de quem não sabe o prazer que a leitura proporciona. Assim, quero lançar aqui um pedido ou vários: aos médicos, para que iluminem melhor suas salas de espera, o que, além de deixá-las menos lúgubres, permitiria que as pessoas pudessem ler enquanto esperam. Aos hotéis, para que não se esqueçam de colocar luz de leitura nos quartos. Uns e outros poderiam manter uma pequena biblioteca ao alcance dos clientes. A concepção bastante corrente em nosso país de que diversão está sempre e necessariamente ligada ao ruído e ao álcool só pode partir de alguém que não gosta de fato do Brasil. E ele ainda merece uma oportunidade. Ou não?

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INTRODUÇÃO

A variedade e os aspectos peculiares das tradições e do folclore da região de Taubaté resultaram dos contatos entre as culturas indígenas, branca e negra, das influências do meio e da criatividade do taubateano.

    Apesar da modernização dos costumes e da evolução sócio-econômico e cultural de Taubaté, permanecem ainda tradições e manifestações folclóricas que formam precioso acervo de cultura espontânea que se traduz em variadas expansões da alma popular: nas alegres festas religiosas; na preciosa ingenuidade da cerâmica popular e num “sem fim” de outros costumes pitorescos, testemunhos de um passado ainda presente, embora às vezes, com novas características que o tempo lhe dá.

    “É uma herança que encerra idéias, pensamentos, usanças, sabedoria e espírito criador do povo, devendo ser preservada “de modo que às gerações atuais lhes dêem seus traços, ou o impregnem de sua própria criação”. (M. Diegues Júnior – 1976:9).

    O reconhecimento do Folclore, como ciência e das manifestações folclórica como expressão da cultura espontânea de um povo, de sua maneira de pensar, sentir e agir, sem influências eruditas, tem incentivado no país, estudos, pesquisas, divulgação e movimentos culturais que visam interpretar essas manifestações, conhecer os traços da cultura material e espiritual do povo brasileiro, e conservar aquilo que é autenticamente nosso.

“O processo de colonização do Vale do Paraíba so Sul iniciando nos primórdios do século XVIII, foi-se acentuando à medida que se tornava mais freqüente a busca de pedras e metais preciosos, além das expedições organizadas com o objetivo de aprisionar e escravizar os indígenas, primitivos habitantes da região.

    Em 1636, surge o primeiro núcleo povoado, denominado Vila de São Francisco das Chagas de Taubaté, e pouco depois as Vilas de Santo Antonio de Guaratinguetá e Nossa Senhora da Conceição de Jacareí, logo seguidas de muitas outras.

    Sem dúvida, o surgimento das vilas no Vale do Paraíba também foi motivado pela necessidade de criar pontos de abastecimento para viajantes e aventureiros que partiam de São Paulo, ou Rio de Janeiro, em busca do ouro. dessa forma, as vilas do vale do Paraíba se tornaram uma espécie de retaguarda econômica das áreas mineradoras do centro e do oeste brasileiro. Algum tempo depois da decadência do “ciclo do ouro” em Minas Gerais, no final do século XVIII, o plantio do café atinge o Vale do Paraíba. No decorrer do século XIX, esse produto transforma profundamente toda a região, em seus aspectos políticos, sociais e econômicos. A riqueza gerada pelo café, o “ouro negro”, como também era conhecido, possibilitou o surgimento da aristocracia rural – vale – paraibana, que tinha seu expoente na figura dos Barões do café, homens influentes e poderosos, que acumularam fortunas com o “maior fenômeno agrícola do século”.

    Nesse período, o Vale do Paraíba recebeu um contingente de escravos africanos jamais vistos em sua história. O trabalho escravo nas fazendas de café foi vital para essa cultura, que encontrou no solo vale-paraibano as condições propicia ao seu cultivo.

Cida Lemos

Enfiando a colher e todos os talheres, se necessário: a que da violência doméstica e a responsabilidade de cada um

Eva Paulino Bueno
 

Resumo

idosos, é um problema para toda a sociedade. A criança que testemunha e/ou sofre violência, vai ser um adulto violento. Cada pessoa é responsável pela erradicação desta doença social, que toma muitas formas, algumas públicas, algumas privadas.

 
: A violência doméstica, especialmente os ataques às mulheres, crianças,

Palavras-chave
 

 

: violência doméstica, assassinatos, estupros, responsabilidade.

O que você
está fazendo para acabar com a violência doméstica?

Todos nós, em algum ponto de nossas vidas, ouvimos algém dizer, “Em briga de marido e mulher, ninguém deve enfiar a colher”. Realmente, é complicado e delicado encararmo a possibilidade de nos metermos em uma situação doméstica, em que cada pessoa e cada casal tem uma dinâmica própria, muitas vezes incompreensível para quem está de fora. Os desencontros, os desacertos, podem ocorrer com os casais jovens e com todos os demais, até com gente que está junta há muitos anos. Mas existe uma grande diferença entre o que poderíamos chamar de uma discussão ou desacordo e o que se constitui em uma briga com agressão física, onde um dos parceiros pode ser ferido ou até morto. Como eu no momento entendo mais do que se passa nos Estados Unidos, vou usar esta oportunidade para reflexionar sobre o que aqui parece ter chegado a um ponto crítico, a violência doméstica em geral, e a violência contra mulheres grávidas em particular: atualmente— pelo menos pelo que se diz na mídia—o assassinato é a forma mais comum para mulheres grávidas nos Estados Unidos Elas são mortas pelos companheiros que não querem continuar na relação, ou por aquele que não quer pagar para manter a criança, e em alguns casos, até por outras mulheres, por várias razões, todas incríveis e brutais. Mas, antes de seguirmos adiante, convém esclarecer que não somente as mulheres sofrem violência no espaço do lar. As crianças e os idosos são vítimas constantes e, em alguns casos, os homens também são atacados dentro de suas póprias casas. Em geral os que sofrem violência são os mais fracos fisicamente, as mulheres, as crianças e os idosos, mas também as pessoas com alguma debilidade mental estão literalmente na linha de tiro, porque não conseguem defender-se devidamente. Estudos indicam que a criança que testemunha violência dentro de sua cas
— mesmo quando ela não é a vítima direta — mais tarde vai ser uma pessoa violenta. As atitudes negativas infelizmente têm uma grande força na formação da criança, que passa a achar que é normal que as pessoas se ataquem fisicamente e se machuquem para fazer veler sua opinião, sua idéia. O dano emocional e psíquico aumenta, com a acumulação da violência. Estudos também demonstram que as crianças que são vítimas de abuso sexual mais tarde se tornarão abusivos com pessoas mais jovens, ou outros mais frágeis que estejam sob sua responsabilidade. É possível dizer-se, então, que as chances de uma pessoa criada em ambiente de violência se tornar em uma pessoa violenta é muito grande. Mas o que diremos de uma sociedade que acredita que o marido bater na mulher “de vez em quando” é bom para ela? Ou daquela que acha que ninguém tem o direito de interferir quando os pais estão disciplinando os filhos, mesmo que esta “disciplina” esteja sendo dada em forma de uma surra violenta? Ninguém escapa desta brutalidade, se a sociedade acha que está bem maltratar, bater, surrar, dar socos. Quem vai parar a mão do sadista que se desforra de seus próprios problemas e suas inseguranças se a ideologia diz que é um direito que ele tem? Mas, logicamente, podemos dizer que nenhuma sociedade que diz ter o mais mínimo verniz de civilizada acha que está bem permitir que tais atos ocorram. No entanto, eles ocorrem, e no mundo inteiro. E, repetindo o que eu disse acima, os que sofrem mais com esta violência são as mulheres, as crianças, e os idosos. Tomando o caso das mulheres em especial, vejamos como se pode entender que muitas mulheres, inclusive educadas, bonitas, ricas, saudáveis, se deixam subjugar dentro de uma relação, e chegam ao ponto de serem assassinadas. Cada um de nós infelizmente sabe pelo menos um caso, e a cada vez ficamos boquiabertos, sem poder entender. “Por que ela não saiu de casa?” “Por que não denunciou o atacante?” “Como suportou tanto tempo de humilhações e sofrimento?” Os ataques fatais a mulheres são feitos, na maioria das vezes, por um homem que a conhece bem, e acontecem ao fim de uma relação abusiva e violenta. E, incrivelmente, já houve casos em que a própria vítima é considerada culpada: “Se não o abandonou, foi porque gostava de apanhar.” Como podemos entender que uma coisa tão bárbara como a violência doméstica, ao invés de diminuir e desaparecer com o aumento da educação, da presença de forças policiais, de tecnologia que deveria permitir que as vítimas conseguissem socorro mais rapidamente, esteja aumentando? Eu já ouvi alguém dizer que a violência contra as mulheres aumentou com a maior liberdade das mulheres, com o advento do “feminismo”. Isto sempre é dito como se a culpa fosse das “feministas”, e que portanto, de alguma forma, os que cometem a violência estão justificados dentro do panorama geral da sociedade: eles foram provocados com a diminuição do seu poder, do domínio sobre seu “território”, tinham o “direito” de reagir. Obviamente, esta é uma idéia absurda, que, outra vez, desloca e coloca a responsabilidade nas vítimas pelo ataque que sofrem. O caso da aluna de mini-saia que foi vaiada e quase agredida aí no Brasil recentemente, é um exemplo desta mentalidade troglodita. A culpa, alguns disseram, foi dela, porque estava “provocando” os  homens. Por que eles a atacaram? Porque se sentiram inseguros diante da sua beleza e da sua percebida autoconfiança. Nada desloca o centro de gravidade de um homem inseguro como a presença de uma mulher que não coloca como sua prioridade máxima alisar o pequeno ego daquele homem, e que, pelo contrário, mostra que não precisa do seu “poder fálico” para se sentir gente. Atrás do caso da aluna, existem milhares de outros, alguns inclusive de assassinato. Também, infelizmente, aqui todos sabemos de vários exemplos que são uma vergonha para todos nós, e não necessito repetilos. Mas voltando à questão do percebido aumento da violência contra mulheres nos últimos anos, e procurando entender a sua razão, vamos constatar que enquanto as mulheres viviam exclusivamente dentro do espaço doméstico, a violência existia, mas o que sofriam raramente chegava ao domínio público. O seguindo a tradição, punha e dispunha da vida das filhas, esposas, mulheres pertencentes à sua casa, mesmo nas famílias mais pobres. O espaço doméstico era o repositório das grandes tragédias pessoais, que ali permaneciam, enterradas em toalhinhas de crochê e lágrimas derramadas detrás das portas. Os grandes romances mundiais nos dão uma amostra vívida dos horrores sofridos, das dores caladas, escondidas. Os primeiros estudos sociológicos, ainda que imperfeitos na coleta e interpretação dos dados, nos dão uma idéia do que se sofria dentro de quatro paredes, mesmo antes que houvesse minissaias, feministas, faculdades para as mulheres. Esta violência podia não ser física, mas os resultados causavam o mesmo dano. Um dos textos mais interessantes que nos dá uma idéia muito clara destes danos é o conto “O papel de parede amarelo”, de Charlotte Perkins Gilman. Neste conto, a esposa é encerrada em um quarto depois do nascimento do filho, porque seu marido crê que ela está “enfraquecida”. Mas este quarto é uma prisão que ele construiu, e que a leva à loucura. Outro conto muito interessante é “O travesseiro de penas”, de Horacio Quiroga. Aqui, a esposa, recém casada com um homem frio e insensível, cai doente e enfraquece, vai perdendo as forças e morre, completamente exaurida. Quando retiram o corpo da cama onde havia morrido, se vê que o travesseiro onde tinha a cabeça continha um animal que havia sugado todo o sangue da mulher pela sua cabeça. Podemos também destacar Casmurro não há de concordar que o ciúme doentio de Bentinho é a razão direta da destruição de Capitu, e mesmo de seu filho? O fato, puro e simples, é que somente os homens (e, também, claro, as mulheres) sem auto-confiança, e com complexo de inferioridade, necessitam atacar os seus parceiros fisica e verbalmente, para submetê-los, humilhá-los, e assim conseguir uma pseudo superioridade. Uma forma destes ataques é a violência sexual. De acorco com a Sexual Violence Resource Center pater familias,Dom, de Machado de Assis. QuemNational (NSVRC) – Centro de recursos nacionais sobre violência sexual –, a violência sexual “é uma doença prevenível”. O NSVRC, que foi criado com fundos recebidos dos “Centros para a prevenção e controle de doenças”, desenvolveu-se como o principal centro de informação de recursos relacionados a todos os aspectos da violência sexual nos Estados Unidos. O NSVRC coleta  dissemina vários tipos de recursos, tais como estatística, pesquisa, estatutos, material para treinamento de pessoal que lida com estes problemas, assim como iniciativas de prevenção e programas de informação. Na página da NSVRC, encontramos a informação que, de acordo com a Pesquisa Nacional sobre a Violência Contra Mulheres, “1 in 6 women and 1 in 33 men in the United States has experienced an attempted or completed rape at some time in their lives. mulheres, e 1 em 33 homens nos Estados Unidos sofreram tentativa de estupro, ou uma violação em algum ponto de suas vidas”. Neste documento, localizado neste endereço 1 — “Uma em seis

Publications_NSVRC_Booklets_Sexual

-Violence-and-the-Spectrum-of-

Prevention_Towards-a-Community-

Solution.pdf que não há só uma razão para a

estupro/violação, e que as razões jamais se encontram só no indivíduo. De fato, como o texto aponta, “uma combinação de forças — tanto as que aumentao o

risco de violência (fatores de risco) e aquelas que reduzem as chances da ocorrência de violência (fatores protetivos) determinam se uma violência sexual ocorrerá ou não. Então, sempre que ocorra um estupro, embora seja o indivíduo o perpetrante, sempre a raiz do mal está na sociedade que acoberta, justifica, perdoa o criminoso, quando não culpa a própria vítima (tal como no caso do ataque à estudante de São Paulo!). Como a

 
 

 

, os autores argumentam

prevalence, incidence, and consequences ofviolence against women: findings from the
national violence against women

survey.

Justice; 2000. Report NCJ 183781.

Tjaden P, Thoennes N. Full report of theWashington (DC): National Institute of família é a primeira sociedade que forma o indivíduo, a falta de apoio emocional e de segurança para os membros da família é o primeiro fator a estabelecer no indivíduo o propensão à violência em geral, e à violência sexual em particular. A sociedade circundando a família provê outros fatores, tais como a falta de emprego e a ausência de castigos para a violência. No Brasil, como sabemos, ainda há o ditado, “Mulher de malandro, gosta de apanhar”. Em outras palavras: ela gosta de apanhar, por isto se torna mulher de malandro. Em outras palavras ainda: ela faz as próprias condições do seu sofrimento e do ataque contra ela. Em uma sociedade em que a mulher é considerada inferior, e sujeita ao homem, a violência contra ela, especialmente a violência sexual, o estupro, vai se tornar norma. Outro fator que predispõe o indivíduo à violiencia sexual é um entendimento do

poder que pode ser conseguido (em geral pelo homem, mas também pela mulher), que deve ser obtido e mantido a qualquer custo. Logicamente, um país ou uma comunidade que tolera a violência, que glorifica o poder sobre outras pessoas, é também aquela sociedade que tende a colocar a culpa na vítima: “ela estava de minissaia, por isto foi atacada e vaiada”. Isto é: a culpa foi dela, não dosatacantes. Dois outros fatores, como aponta a NSVRC, facilitam a existência de violência sexual: um sentido de que a dominação é fator predominante na construção da masculinidade, e a crença na sacralidade absoluta do espaço doméstico. Em outras palavras, “em briga de marido e mulher, não se deve meter a colher”.
como um bem de grande valia, O interessante deste ditado é que, como sabemos, muitas vezes a violência do marido contra a mulher ocorre até fora da casa. Então, seria como se o homem, cuja masculinidade foi alimentada da noção da sua superioridade, dentro de um sistema de glorificação da violência, sinta que o corpo da mulher é o seu espaço doméstico frequentemente, o homem ataca sua mulher até em público, e não admite que ninguém a defenda porque, no seu entender, sabemos de casos terríveis que ilustram esta realidade, infelizmente. Como muitos de nós podemos tristemente nos lembrar, houve um marido advogado aí no Paraná, há uns 30 anos atrás, que matou a mulher de ciúme, alegando que ela estava “tendo um caso”, se defendeu a si mesmo com grande estardalhaço e cobertura da mídia, conseguiu se eleger deputado por causa da fama que adquiriu. Com aquele caso, a sociedade paranaense estava dizendo (naquele tempo, pelo menos) que não tem problema matar a mulher, desde que o assassino seja bom de papo, jogue a culpa na vítima, e se proclame o “macho ofendido”. O que fazer então, para diminuir a violência doméstica, o estupro, a violência contra mulheres, e também crianças e idosos? Eu acho que a NSVRC está correta quando diz que simplesmente punir os criminosos não resolve a situação. Cada sociedade tem que tomar responsabilidade pelos fatores que podem ser controlados antes que o indivíduo chegue a pensar que não tem problema maltratar alguém que esteja sob seu poder. Dentro da família, por exemplo, cada vez que os pais tratem as filhas como cidadãs de segunda categoria, em comparação com os filhos, estão alimentando estas tendências. Na sociedade civil, cada vez que um homem maltrate sua mulher e seja “desculpado”, está criando mais violência. Então, para concluir, em briga de marido e mulher, todos estão envolvidos, quer queiram, quer não. A sociedade que aceita a violência é tão culpada como o perpetrador direto da violência. E as pessoas que assistem a estes ataques e não procuram de alguma forma proteger a vítima, também são igualmente culpadas. Assim, se você algum dia se deparar com um homem batendo em uma mulher, ou pais “castigando” os filhos brutalmente, tente fazer algo. Chame a polícia. Tente dissuadir o atacante até que chegue a polícia. Se aquela mulher, aquela criança, aquele idoso, aquela pessoa com capacidades mentais diminuídas é atacado na sua frente e você não faz nada, VOCÊ TAMBÉM É CULPADO/A. . Por isto, muitoela é coisa sua. Muitos de nós

 Americanas, Brasileira, e Norte Americana.

 
 

 

EVA PAULINO BUENO é Professora de Espanhol e Portugues, Literaturas Latino

A imparcialidade das chamas, em imagens e palavras

por José de Souza Martins

Percorri os escombros da favela incendiada, no Jaguaré, no dia seguinte. Num canto, ainda saía fumaça da madeira caída. O fogo comeu os barracos por cima, até chegar ao chão que, molhado pela água dos bombeiros, reteve muita coisa chamuscada ou parcialmente queimada. Roupas coloridas pareciam confete sobre o solo negro. Quase 350 famílias ficaram sem nada.

A frase interrompida pelo fogo em uma página de fascículo da Secretaria da Educação diz que é texto sobre “os direitos da criança”. Outra página, queimada pelas bordas e retorcida, no que sobrou propõe “questões de compreensão”: “Ao conjunto de pessoas que habitam determinado lugar é dado o nome de população. Existem, por exemplo, a população mundial, a população brasileira, etc. A quais populações você pertence?” A criança dona do caderno não teve tempo de responder que pertencia à população da favela Diogo Pires, São Paulo, Brasil, nem poderá fazê-lo pois a favela não existe mais.

Em diferentes pontos do terreno recoberto de cinza e carvão, talheres, especialmente garfos, estão espalhados ao redor de determinados pontos, ao lado de canecas partidas de porcelana e pratos cheios com uma sopa de carvão. Ali existiram as mesas improvisadas do pão nosso de cada dia. Em vários pontos, o calor estourou saquinhos de plástico com alimentos: aqui, um pacote de arroz Piccinin; ali, um pacote de feijão Prato Bom; acolá, um pacote de arroz Pateko; mais adiante, um pacote de macarrão Renata, “com ovos”, esclarece o invólucro. Num outro ponto, salsichas e cabeças de alho transformadas em carvão estão espalhadas pelo chão.

Na direção da Rua Diogo Pires, um barraco ficou parcialmente de pé. Num cômodo que era quarto e cozinha, um tabique divide duas imaginárias metades, construído com restos de uma placa de posto de gasolina. Servia como privada e banheiro. Aparentemente, a família havia acabado de jantar. Na cuba e sobre a pia de aço inoxidável pratos recém usados, talheres. Na parede, com um rombo aberto pelo fogo, um bonito armário branco de portas verdes. Sob a pia, um gaveteiro envernizado, uma das gavetas aberta, o conteúdo esvaziado por alguém na pressa de fugir. Encostado ao tabique do banheiro, o estrado de uma cama de casal: para a família ter espaço durante o dia, a cama era desmontada. Penduradas num canto do estrado, coloridas roupas de crianças.

Lá fora, fogões a gás, geladeiras e máquinas de lavar roupa, queimados, cobrem o terreno enegrecido e encharcado. Para que morador de favela, morando em precário barraco de madeira, quer máquina de lavar roupa? O monturo tem uma mensagem: os bens de consumo duráveis como investimentos na casa imaginária, a casa que esperam ter um dia, que corresponda à realidade daquelas coisas. São sinais de esperança, modos de se equiparem para dias melhores como os dos ex-favelados do condomínio ali do lado, que há pouco receberam seus apartamentos do governo do Estado e da Prefeitura.

Nas proximidades, dois homens conversam. “Isso é castigo”, diz um deles. Irrito-me e comento: “Estranho! Só pobre é castigado. Só favela pega fogo, queimando casa de montão.” Um deles responde, surpreso: “É mesmo!” E se retiram. Quatro crianças caminham na minha direção: “Moço! Tira uma foto?” Tiro. “Quando é que a gente vai aparecer na televisão?” Os pobres querem ser vistos. Um senhor muito simples se aproxima, trazendo pela mão o menino Vinicius, limpo e arrumadinho, como sempre acontece com crianças e adultos de favela: compensam na aparência o que lhes falta na vida. Quer que tire uma foto de seu filho pequeno.

Alguns cachorros perambulam. Um deles se deita encostado ao resto de uma parede. “Está esperando o dono, que morava aí; deve estar com fome”, comenta a moradora do barraco vizinho, que não foi queimado. A uma vizinha diz que o incêndio começou quando um homem, na outra ponta da favela, quis pôr fogo na mulher. Ela responde: “Tem que linchar ele! Não lincharam ainda?” As chamas da imaginação vão tomando conta de todos para explicar o inexplicável.

Ali perto, encontro o corpo carbonizado de um gatinho, que não conseguiu escapar. Sinal de fogo rápido. Se os vizinhos não tivessem corrido para retirar crianças pequenas, algumas delas teriam sido consumidas pelo fogo que se espalhou depressa. Duas gêmeas foram retiradas de um barraco por moradores, enquanto outros vizinhos retiravam seus sete irmãos e a mãe carregava uma filha paraplégica. Aqui e ali, alguns moradores desabafam, vários com forte sotaque nordestino: “Saí com a roupa do corpo. Ficou tudo pra trás.”

Poderia não ter ficado. Bem ao lado, erguem-se os novos e belos edifícios de um programa habitacional do Governo do Estado e da Prefeitura, o terreno ajardinado, um menino andando de bicicleta na calçada. É parte do projeto de urbanização da favela, apartamentos entregues aos moradores há pouco tempo pelo governador. Com a novidade, em relação ao Cingapura: além de apartamentos de dois quartos, há varandas de acesso e também apartamentos de três quartos, para as famílias maiores. Há 6 meses a Prefeitura tenta adquirir do dono o terreno invadido pelos favelados da “Diogo Pires”, abandonado por uma empresa de reparação de vagões ferroviários. Já há um projeto pronto para extensão do condomínio para aquela área e construção de apartamentos para 400 famílias. Propriedade privada, o Governo do Estado nada pode fazer enquanto não se tornar proprietário do terreno. Não fosse esse empecilho, os prédios já estariam adiantados, como vários ao lado e a favela não estaria lá.

Já no fim da tarde, numa das pontas da favela aparece um grupo que vem trazer lanches e café com leite para os desalojados. Na outra ponta, um homem chega discretamente com seu automóvel carregado de pacotes de leite e os distribui. Na igreja do Jaguaré, um jovem casal, vindo de São Caetano, traz roupas para as vítimas. No cenário escuro dos caibros e paredes carbonizados, bate forte o coração luminoso dos que se esquecem do eu e se pensam como nós.

Publicado em O Estado de S. Paulo [Caderno Aliás, A Semana Revista], domingo, 18 de outubro de 2009, p. J3.

Fonte: Posted on 24/02/2010 by Revista Espaço Acadêmico

O bibliotecário e a mediação

Iniciativas comunitárias que apostam no poder libertador da leitura são louváveis, mas não eximem os governos de sua responsabilidade de criar uma rede articulada de bibliotecas
Por Ezequiel Theodoro da Silva

Talvez nenhum lugar em qualquer comunidade seja tão amplamente democrático como a biblioteca pública. A única exigência para entrar é o interesse!” –
Lady Bird Johnson

Por várias vezes, em diferentes lugares do Brasil e do exterior, afirmei que uma revolução qualitativa da leitura brasileira tem de contemplar, necessariamente, questões relacionadas com a existência de uma rede articulada de bibliotecas e pela ampliação pedagógica do trabalho dos bibliotecários.

Neste texto, retomo, reitero e amplifico esse posicionamento mesmo porque os governos continuamente cometem verdadeiros crimes para escamotear as necessidades de trabalho científico, tecnológico e técnico no âmbito da organização e disponibilização de acervos de leitura para as múltiplas comunidades existentes nas regiões brasileiras.

As duas pesquisas nacionais sobre hábitos de leitura do povo brasileiro, publicadas com o nome “Retratos da Leitura” (ver http://www.prolivro.org.br/ipl/publier4.0/texto.asp?id=48), mostram que 34% da população nunca foi a uma biblioteca; nas classes D e E, esse percentual sobe para 49%. Esses indicadores mostram a imensa distância que existe entre a casa do cidadão e os espaços formais onde se tem acesso à cultura escrita.

Inexistentes ou anacrônicas
Tais “retratos”, em verdade, apenas fazem redundar o óbvio no que se refere às bibliotecas: ou elas inexistem ou estão paradas no tempo ou ficaram apenas nas intenções, sem nunca terem sido organizadas e postas a funcionar condignamente. Em que pesem os cursos de biblioteconomia e de ciências da informação, a mostrar, de forma escancarada, que existe profissional graduado e habilitado para atuar na sociedade, a atitude das autoridades tem sido a de fuga ou de esquiva da responsabilidade, deixando que as comunidades “se virem” no que se refere à convivência com livros e outros suportes de escrita.

Recentemente, telefonou-me uma repórter de um jornal curitibano para perguntar o que eu achava de uma experiência de formação de uma biblioteca comunitária. Disse-me ela que os catadores de lixo da cidade tinham “catado” livros e revistas e fundado uma biblioteca para o segmento de catadores de lixo. Louvei a iniciativa, informei que os livros poderiam expandir os horizontes de mundo dos catadores de lixo etc., etc., mas, quando disse que era o governo que deveria organizar e manter as bibliotecas, a repórter entrou em parafuso, achando que não dera a devida importância à iniciativa grandiosa daquela comunidade.

Essa experiência com a “biblioteca catada” não é muito diferente de outras que conheço pelo Brasil, como borracharia-biblioteca, baú-biblioteca, peixaria-biblioteca, boteco-biblioteca, jumento-biblioteca etc., enaltecidas e espetacularizadas pela mídia como soluções absolutas para o problema da nossa vergonhosa situação nessa área. Numa análise mais fria e crítica e sem querer de maneira nenhuma desmerecer as iniciativas do borracheiro, do peixeiro e/ou do dono do jumento, o que vemos, de maneira reiterada, é a escamoteação dos governos, no passar dos anos, com aquilo que é mais do que claro, cristalino e evidente: que sem bibliotecas na real acepção da palavra e sem gente especializada, formada em biblioteconomia, para dinamizá-las profissionalmente, continuaremos incentivando os arremedos e, pior, curvando-nos à fuga de responsabilidade pelas esferas governamentais.

“Melhor isto do que nada”, dirão as más línguas. E talvez a minha própria língua já tenha dito isto à luz das possibilidades libertárias dos processos de leitura em si: o fenômeno de que a leitura autônoma pode levar à emancipação das pessoas e gerar a consciência das necessidades. Esse processo pode ser mais bem conhecido através da leitura do livro O queijo e os vermes – o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido, de Carlo Ginzburg (Companhia das Letras, 1987). Entretanto, o crescimento do número de livros desses acervos comunitários, a diversificação dos suportes da leitura, a organização, preservação e recuperação das obras, a sofisticação dos serviços de apoio aos usuários, a seleção de livros de interesse da comunidade em seus segmentos (infantil, adulto, 3ª idade) impõem, necessariamente, a presença de serviços especializados para fazê-los. E daí a esperança de que o profissional bibliotecário possa ser envolvido para cuidar dessas tarefas e encaminhar os trabalhos de maneira objetiva e embasada nos saberes sistematizados, oriundos da área de biblioteconomia.

Os estereótipos em torno da figura do bibliotecário são também escaramuças para se esquivar da responsabilidade de sua contratação para trabalhos em diferentes tipos de bibliotecas, principalmente as escolares e as comunitárias. De fato, ao longo da nossa história e sendo muito fortalecida após a década de 1960, foi construída a imagem do bibliotecário como um trabalhador insensível, normatizado e normativista, catalogador de livros, controlador do silêncio dos espaços, estafeta dos castigos escolares, que em muito contribuíram para a sua “dispensa” no momento de constituição e de desenvolvimento das bibliotecas.

A briga de Darcy Ribeiro

Recordo-me, por exemplo, das grandes escaramuças entre Darcy Ribeiro, trabalhando para o governo Brizola no Rio de Janeiro (1983-1987), e a classe dos bibliotecários, com aquele afirmando que estes nada tinham a contribuir com a educação pública e com os CIEPs então estruturados. Tal estereótipo, infelizmente, ainda está muito presente no imaginário de muitas autoridades brasileiras, mas convém perguntar a quem esse estereótipo está servindo realmente… No meu ponto de vista, ele também serve à política de esquiva que vem sendo adotada pelos governos em relação à implantação de bibliotecas municipais, escolares e comunitárias neste país. Quer dizer, em se tratando de bibliotecas, sempre se dá um jeitinho e dentro desse jeitinho o bibliotecário nunca está incluído!

Para não colocar o bibliotecário como “vítima” de uma história meio ao contrário, acredito ser também importante uma visada crítica para dentro dos cursos de biblioteconomia ou de ciências de informação, oferecidos por diferentes instituições de ensino superior. Com o fim das habilitações, são raros os cursos que desenvolvem uma base adequada de conhecimentos e práticas para atuação que não seja em centros de informações e/ou empresas. A realidade escolar e as realidades comunitárias não são refletidas e discutidas ou então são tangencialmente tratadas, fechando o círculo vicioso de que o governo não contrata bibliotecários para as escolas e comunidades e, portanto, não existe por que tratá-las durante o período de formação básica. Daí que, quando da necessidade de profissionais para trabalhar nas bibliotecas escolares, ajeita-se, às carreiras, uma oficina rápida para que professores ou membros de uma comunidade recebam dois pingos de biblioteconomia para “tomar conta da biblioteca”.

Em recente visita que fiz a minha cidade natal, cruzei com a filha de um amigo que, sei, possui tão somente o diploma do ensino fundamental. Portanto, sem ensino médio e muito menos o superior. Depois dos apertos de mãos e dos abraços, perguntei o que ela vinha fazendo. Ela me disse que era a responsável pela biblioteca da faculdade local e me pedia, naquele instante, que eu enviasse os meus últimos livros porque os professores e alunos tinham muito interesse nos meus escritos.

Um navio à deriva
Ora, sem querer desmerecer a escolaridade dessa conhecida e sua dedicação à biblioteca, fiquei perguntando se uma biblioteca de ensino superior poderia ser responsavelmente organizada e dinamizada por uma pessoa tão jovem e com formação leiga ou muito precária. Vê-se, aqui, mais um episódio desta comédia tragicômica chamada “biblioteca brasileira”. Sei, também, por exemplo, que falar para muitos prefeitos sobre a necessidade de contratação de bibliotecário é estar disposto a ouvir impropérios de volta.

Finalizando esta reflexão, creio que a melhor imagem da problemática das bibliotecas no Brasil seja a do filme E la nave va, de Federico Fellini. De fato, igual ao infindável problema da leitura no país, “haja paciência” para tanta contradição, para tanto descaso, para tanto cinismo. Se considerarmos uma biblioteca como um lugar para o qual constantemente nos dirigimos a fim de incrementar a nossa humanidade, então cabe indagar se a falta de humanidade em solo nacional, reiterada pela mídia todos os dias, não tem uma relação com a ausência e falta de bibliotecas em solo brasileiro.

Ezequiel Theodoro da Silva é professor colaborador voluntário junto à Faculdade de Educação da Unicamp. Foi Presidente da Associação de Leitura do Brasil (ALB) de 1982 a 1986 e de 2007 a 2008. Foi secretário municipal de Cultura, Esportes e Turismo e secretário municipal de Educação de Campinas na década de 1990.

Fonte: Revista Educação – Edição 153

Formação x Informação

Chegamos agora a uma segunda questão muito importante, associada à anterior: o curso de Ciências Sociais deveria enfatizar a formação ou a informação dos alunos?

Sinto que devemos abandonar a visão pedagógica tecnicista preocupada apenas com a eficácia na transmissão de conteúdo; deixar de lado, inclusive, a visão paternalista de que o principal papel do professor é transmitir conhecimento.

Para compreender um mundo conturbado que se transforma com uma velocidade vertiginosa não podemos, da mesma forma, passar aos alunos a impressão de que o conhecimento produzido pela Sociologia nos séculos XIX e XX seja algo sagrado que os alunos devem decorar e guardar como se fossem dogmas absolutos válidos para toda a eternidade.

Provavelmente, a postura adequada para se enfrentar o furacão produzido pela 3ª revolução tecnológica, que pode varrer do mapa verdades que guardávamos com muito carinho, seria aprender formas de se aprender. Seria aprender como aprender.

Creio, enfim, que o curso de ciências sociais não precisa ter a pretensão de transmitir aos alunos tudo o que foi produzido pelos grandes cientistas sociais, coisa que seria na verdade um absurdo sem tamanho. O curso deveria, sim, oferecer aos alunos certos instrumentos teóricos e conceituais básicos e possibilitar o desenvolvimento de certas habilidades e predisposições a fim de que eles possam aprender ao longo de toda a sua vida. Ou seja, — e isso é importante ressaltar —, a formação intelectual é uma tarefa para toda a vida, não termina com a conclusão de um curso de graduação na Universidade.

Temos à nossa disposição uma fonte inesgotável de informações: bibliotecas, a Internet, jornais, programas de TV a cabo, revistas especializadas, discos de CD-ROM, videotecas. Para aproveitar esse gigantesco tesouro acumulado pela humanidade, precisamos aprender como aprender.

Quando constatamos que os alunos chegam aos cursos de graduação com dificuldades na leitura de textos e na expressão escrita nos perguntamos o que eles e os professores ficaram fazendo durante os oito anos de ensino básico e fundamental. Será que não iremos repetir a mesma pergunta quando esses alunos chegarem à pós graduação?

Acho que nós professores de Ciências Humanas podemos aprender um pouco com o método de ensino desenvolvido na Matemática: dar cinco minutos de explicação para cada cinco horas de exercícios. Com certeza, muitas coisas que aprendi de Matemática já foram esquecidas. Mas jamais vou perder a capacidade de raciocínio lógico que desenvolvi quebrando a cabeça para resolver problemas de aritmética, de álgebra e de geometria.

Nós professores de Ciências Sociais falamos, às vezes, quatro horas seguidas acreditando que os alunos estão aprendendo muito. Na verdade, estamos passando informações aos alunos sem saber se eles estão assimilando estas informações e esquecendo que a maior parte do que um ser humano ouve é esquecido rapidamente.

Acho que devemos abandonar a pedagogia maternal e paternalista. Em lugar de doar conhecimento, supondo ser isso possível, talvez devêssemos propiciar aos alunos o desenvolvimento de um conjunto de habilidades intelectuais: aperfeiçoar a capacidade de leitura de textos, a capacidade de expressão oral e escrita, a capacidade de análise e síntese, a capacidade de abstração, a imaginação e a criatividade sociológica, a capacidade de trabalhar em equipe e de compreender as razões dos outros, a capacidade de reflexão, a disciplina intelectual etc. Considero como efeitos quase inevitáveis desse processo de desenvolvimento de habilidades intelectuais, emocionais e sociais: a consciência crítica, o desenvolvimento da cidadania, a visão humanística, a postura ética, o desenvolvimento da personalidade.

Qual poderia ser o método didático-pedagógico adequado para dar ênfase na formação, isto é, para privilegiar o desenvolvimento de habilidades intelectuais, emocionais e atitudes socialmente adequadas relacionadas com o exercício da cidadania?

Supõe-se, antes de mais nada, que é o esforço intelectual constante dos alunos que propicia o desenvolvimento deste conjunto de habilidades. É importante sublinhar isso: renunciando à postura maternal e paternalista de facilitar as coisas para os alunos, deveríamos oferecer a eles as condições necessárias para que eles pudessem dedicar o maior esforço possível na conquista do conhecimento. Esforço pessoal do aluno: essa seria a palavra-chave da pedagogia que estamos sugerindo.

Em termos práticos, seria preciso reservar mais tempo livre para os alunos poderem ler os textos com maior atenção e carinho fazendo fichamentos, seria preciso reservar mais tempo para os alunos lerem e discutirem os textos em grupo, mais tempo livre para os alunos escreverem, exporem suas idéias, para debaterem e fazerem assembléias.

Por exemplo: se a aula tiver a duração de quatro horas, na primeira metade da aula os alunos poderiam ler os textos em grupo – textos de mais ou menos três páginas – e responderiam questões propostas pelo professor com a finalidade de orientar a interpretação dos textos. Na segunda metade da aula, os grupos poderiam expor suas respostas e poderia ser promovido um debate geral. O professor, nesse caso, ficaria livre para oferecer um atendimento mais direto e personalizado aos alunos, ouvindo, orientando, tirando dúvidas, colocando questões, instigando reflexões. Venho percebendo que muitos alunos que não abrem a boca durante as aulas convencionais conseguem levantar suas dúvidas nesta forma de atendimento personalizado. A aula é fisicamente cansativa para o professor porque, às vezes, pode ocorrer de três ou quatro grupos pedirem explicações ao mesmo tempo. Mas é muito mais gratificante porque o contato entre professor e alunos deixa de ser demasiadamente formal e impessoal.

Existem pesquisas que mostram que os alunos conseguem guardar mais informações estudando em grupo do que ouvindo palestras.

Relembrando os cursos de graduação que fiz, percebo agora que duas professoras que todo mundo considerava medíocres foram aquelas que me propiciaram a herança mais importante que recebi da Universidade. Elas me ensinaram a fazer fichamentos e, a partir destes fichamentos, fazer trabalhos escritos. Ou seja, elas me ensinaram a produzir conhecimento sem a ajuda de ninguém e nunca mais parei de fazer isso. Chego, assim, à conclusão, que aquelas duas professoras consideradas medíocres foram mais importantes para a minha formação intelectual que os professores titulares renomados que falaram muitas coisas que esqueci completamente.

Fonte: revista-espaco-academico-leitores@googlegroups.com

O conhecimento científico-tecnológico oriundo de pesquisas visa a solucionar os problemas da sociedade e contribuir para seu desenvolvimento. A partir disso, o processo de comunicação científica, através de canais formais ou informais, torna-se essencial para que a evolução do estado da arte de uma área seja sempre constante. Porém, nem sempre as informações são encontradas nos meios tradicionais de publicação de conhecimento, fazendo com que a literatura cinzenta torne-se uma fonte valiosa para diversas áreas do conhecimento. O desenvolvimento e a evolução das novas tecnologias de informação garantem a essa comunicação um caráter ágil e dinâmico, permitindo que a literatura cinzenta avance para um reconhecimento de sua importância no meio acadêmico. Portanto, faz-se necessário o gerenciamento desse tipo de literatura, que possibilita uma alternativa aos meios tradicionais de aquisição de informação científica. A proposta de criar um ambiente de recuperação de informação e gerenciamento da literatura gerada em encontros de estudantes desenvolve-se a partir da ideia de que, muitas vezes, é possível antecipar tendências que só seriam perceptíveis quando da publicação das mesmas pesquisas em meios já consolidados, muitas vezes ocasionando uma perda de informações existentes apenas em seu andamento, subtraídas quando da redação de artigos ou livros. Assim, a proposta de utilização do programa Open Conference Systems possibilita não somente uma maior agilidade e dinamismo na organização de eventos, tendo também como objetivo a possibilidade para a criação de um ambiente digital em que trabalhos apresentados nos eventos estudantis de biblioteconomia, documentação, ciência e gestão da informação, permitindo uma interação entre pesquisadores, tornando-se uma alternativa para publicação, exercendo função memorial para os eventos estudantis da área e constituir uma fonte de informação relevante para a comunidade.

Fonte: Rev. Ciência da Informação v.8 n.5, 2002