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Enfiando a colher e todos os talheres, se necessário: a que da violência doméstica e a responsabilidade de cada um

Eva Paulino Bueno
 

Resumo

idosos, é um problema para toda a sociedade. A criança que testemunha e/ou sofre violência, vai ser um adulto violento. Cada pessoa é responsável pela erradicação desta doença social, que toma muitas formas, algumas públicas, algumas privadas.

 
: A violência doméstica, especialmente os ataques às mulheres, crianças,

Palavras-chave
 

 

: violência doméstica, assassinatos, estupros, responsabilidade.

O que você
está fazendo para acabar com a violência doméstica?

Todos nós, em algum ponto de nossas vidas, ouvimos algém dizer, “Em briga de marido e mulher, ninguém deve enfiar a colher”. Realmente, é complicado e delicado encararmo a possibilidade de nos metermos em uma situação doméstica, em que cada pessoa e cada casal tem uma dinâmica própria, muitas vezes incompreensível para quem está de fora. Os desencontros, os desacertos, podem ocorrer com os casais jovens e com todos os demais, até com gente que está junta há muitos anos. Mas existe uma grande diferença entre o que poderíamos chamar de uma discussão ou desacordo e o que se constitui em uma briga com agressão física, onde um dos parceiros pode ser ferido ou até morto. Como eu no momento entendo mais do que se passa nos Estados Unidos, vou usar esta oportunidade para reflexionar sobre o que aqui parece ter chegado a um ponto crítico, a violência doméstica em geral, e a violência contra mulheres grávidas em particular: atualmente— pelo menos pelo que se diz na mídia—o assassinato é a forma mais comum para mulheres grávidas nos Estados Unidos Elas são mortas pelos companheiros que não querem continuar na relação, ou por aquele que não quer pagar para manter a criança, e em alguns casos, até por outras mulheres, por várias razões, todas incríveis e brutais. Mas, antes de seguirmos adiante, convém esclarecer que não somente as mulheres sofrem violência no espaço do lar. As crianças e os idosos são vítimas constantes e, em alguns casos, os homens também são atacados dentro de suas póprias casas. Em geral os que sofrem violência são os mais fracos fisicamente, as mulheres, as crianças e os idosos, mas também as pessoas com alguma debilidade mental estão literalmente na linha de tiro, porque não conseguem defender-se devidamente. Estudos indicam que a criança que testemunha violência dentro de sua cas
— mesmo quando ela não é a vítima direta — mais tarde vai ser uma pessoa violenta. As atitudes negativas infelizmente têm uma grande força na formação da criança, que passa a achar que é normal que as pessoas se ataquem fisicamente e se machuquem para fazer veler sua opinião, sua idéia. O dano emocional e psíquico aumenta, com a acumulação da violência. Estudos também demonstram que as crianças que são vítimas de abuso sexual mais tarde se tornarão abusivos com pessoas mais jovens, ou outros mais frágeis que estejam sob sua responsabilidade. É possível dizer-se, então, que as chances de uma pessoa criada em ambiente de violência se tornar em uma pessoa violenta é muito grande. Mas o que diremos de uma sociedade que acredita que o marido bater na mulher “de vez em quando” é bom para ela? Ou daquela que acha que ninguém tem o direito de interferir quando os pais estão disciplinando os filhos, mesmo que esta “disciplina” esteja sendo dada em forma de uma surra violenta? Ninguém escapa desta brutalidade, se a sociedade acha que está bem maltratar, bater, surrar, dar socos. Quem vai parar a mão do sadista que se desforra de seus próprios problemas e suas inseguranças se a ideologia diz que é um direito que ele tem? Mas, logicamente, podemos dizer que nenhuma sociedade que diz ter o mais mínimo verniz de civilizada acha que está bem permitir que tais atos ocorram. No entanto, eles ocorrem, e no mundo inteiro. E, repetindo o que eu disse acima, os que sofrem mais com esta violência são as mulheres, as crianças, e os idosos. Tomando o caso das mulheres em especial, vejamos como se pode entender que muitas mulheres, inclusive educadas, bonitas, ricas, saudáveis, se deixam subjugar dentro de uma relação, e chegam ao ponto de serem assassinadas. Cada um de nós infelizmente sabe pelo menos um caso, e a cada vez ficamos boquiabertos, sem poder entender. “Por que ela não saiu de casa?” “Por que não denunciou o atacante?” “Como suportou tanto tempo de humilhações e sofrimento?” Os ataques fatais a mulheres são feitos, na maioria das vezes, por um homem que a conhece bem, e acontecem ao fim de uma relação abusiva e violenta. E, incrivelmente, já houve casos em que a própria vítima é considerada culpada: “Se não o abandonou, foi porque gostava de apanhar.” Como podemos entender que uma coisa tão bárbara como a violência doméstica, ao invés de diminuir e desaparecer com o aumento da educação, da presença de forças policiais, de tecnologia que deveria permitir que as vítimas conseguissem socorro mais rapidamente, esteja aumentando? Eu já ouvi alguém dizer que a violência contra as mulheres aumentou com a maior liberdade das mulheres, com o advento do “feminismo”. Isto sempre é dito como se a culpa fosse das “feministas”, e que portanto, de alguma forma, os que cometem a violência estão justificados dentro do panorama geral da sociedade: eles foram provocados com a diminuição do seu poder, do domínio sobre seu “território”, tinham o “direito” de reagir. Obviamente, esta é uma idéia absurda, que, outra vez, desloca e coloca a responsabilidade nas vítimas pelo ataque que sofrem. O caso da aluna de mini-saia que foi vaiada e quase agredida aí no Brasil recentemente, é um exemplo desta mentalidade troglodita. A culpa, alguns disseram, foi dela, porque estava “provocando” os  homens. Por que eles a atacaram? Porque se sentiram inseguros diante da sua beleza e da sua percebida autoconfiança. Nada desloca o centro de gravidade de um homem inseguro como a presença de uma mulher que não coloca como sua prioridade máxima alisar o pequeno ego daquele homem, e que, pelo contrário, mostra que não precisa do seu “poder fálico” para se sentir gente. Atrás do caso da aluna, existem milhares de outros, alguns inclusive de assassinato. Também, infelizmente, aqui todos sabemos de vários exemplos que são uma vergonha para todos nós, e não necessito repetilos. Mas voltando à questão do percebido aumento da violência contra mulheres nos últimos anos, e procurando entender a sua razão, vamos constatar que enquanto as mulheres viviam exclusivamente dentro do espaço doméstico, a violência existia, mas o que sofriam raramente chegava ao domínio público. O seguindo a tradição, punha e dispunha da vida das filhas, esposas, mulheres pertencentes à sua casa, mesmo nas famílias mais pobres. O espaço doméstico era o repositório das grandes tragédias pessoais, que ali permaneciam, enterradas em toalhinhas de crochê e lágrimas derramadas detrás das portas. Os grandes romances mundiais nos dão uma amostra vívida dos horrores sofridos, das dores caladas, escondidas. Os primeiros estudos sociológicos, ainda que imperfeitos na coleta e interpretação dos dados, nos dão uma idéia do que se sofria dentro de quatro paredes, mesmo antes que houvesse minissaias, feministas, faculdades para as mulheres. Esta violência podia não ser física, mas os resultados causavam o mesmo dano. Um dos textos mais interessantes que nos dá uma idéia muito clara destes danos é o conto “O papel de parede amarelo”, de Charlotte Perkins Gilman. Neste conto, a esposa é encerrada em um quarto depois do nascimento do filho, porque seu marido crê que ela está “enfraquecida”. Mas este quarto é uma prisão que ele construiu, e que a leva à loucura. Outro conto muito interessante é “O travesseiro de penas”, de Horacio Quiroga. Aqui, a esposa, recém casada com um homem frio e insensível, cai doente e enfraquece, vai perdendo as forças e morre, completamente exaurida. Quando retiram o corpo da cama onde havia morrido, se vê que o travesseiro onde tinha a cabeça continha um animal que havia sugado todo o sangue da mulher pela sua cabeça. Podemos também destacar Casmurro não há de concordar que o ciúme doentio de Bentinho é a razão direta da destruição de Capitu, e mesmo de seu filho? O fato, puro e simples, é que somente os homens (e, também, claro, as mulheres) sem auto-confiança, e com complexo de inferioridade, necessitam atacar os seus parceiros fisica e verbalmente, para submetê-los, humilhá-los, e assim conseguir uma pseudo superioridade. Uma forma destes ataques é a violência sexual. De acorco com a Sexual Violence Resource Center pater familias,Dom, de Machado de Assis. QuemNational (NSVRC) – Centro de recursos nacionais sobre violência sexual –, a violência sexual “é uma doença prevenível”. O NSVRC, que foi criado com fundos recebidos dos “Centros para a prevenção e controle de doenças”, desenvolveu-se como o principal centro de informação de recursos relacionados a todos os aspectos da violência sexual nos Estados Unidos. O NSVRC coleta  dissemina vários tipos de recursos, tais como estatística, pesquisa, estatutos, material para treinamento de pessoal que lida com estes problemas, assim como iniciativas de prevenção e programas de informação. Na página da NSVRC, encontramos a informação que, de acordo com a Pesquisa Nacional sobre a Violência Contra Mulheres, “1 in 6 women and 1 in 33 men in the United States has experienced an attempted or completed rape at some time in their lives. mulheres, e 1 em 33 homens nos Estados Unidos sofreram tentativa de estupro, ou uma violação em algum ponto de suas vidas”. Neste documento, localizado neste endereço 1 — “Uma em seis

Publications_NSVRC_Booklets_Sexual

-Violence-and-the-Spectrum-of-

Prevention_Towards-a-Community-

Solution.pdf que não há só uma razão para a

estupro/violação, e que as razões jamais se encontram só no indivíduo. De fato, como o texto aponta, “uma combinação de forças — tanto as que aumentao o

risco de violência (fatores de risco) e aquelas que reduzem as chances da ocorrência de violência (fatores protetivos) determinam se uma violência sexual ocorrerá ou não. Então, sempre que ocorra um estupro, embora seja o indivíduo o perpetrante, sempre a raiz do mal está na sociedade que acoberta, justifica, perdoa o criminoso, quando não culpa a própria vítima (tal como no caso do ataque à estudante de São Paulo!). Como a

 
 

 

, os autores argumentam

prevalence, incidence, and consequences ofviolence against women: findings from the
national violence against women

survey.

Justice; 2000. Report NCJ 183781.

Tjaden P, Thoennes N. Full report of theWashington (DC): National Institute of família é a primeira sociedade que forma o indivíduo, a falta de apoio emocional e de segurança para os membros da família é o primeiro fator a estabelecer no indivíduo o propensão à violência em geral, e à violência sexual em particular. A sociedade circundando a família provê outros fatores, tais como a falta de emprego e a ausência de castigos para a violência. No Brasil, como sabemos, ainda há o ditado, “Mulher de malandro, gosta de apanhar”. Em outras palavras: ela gosta de apanhar, por isto se torna mulher de malandro. Em outras palavras ainda: ela faz as próprias condições do seu sofrimento e do ataque contra ela. Em uma sociedade em que a mulher é considerada inferior, e sujeita ao homem, a violência contra ela, especialmente a violência sexual, o estupro, vai se tornar norma. Outro fator que predispõe o indivíduo à violiencia sexual é um entendimento do

poder que pode ser conseguido (em geral pelo homem, mas também pela mulher), que deve ser obtido e mantido a qualquer custo. Logicamente, um país ou uma comunidade que tolera a violência, que glorifica o poder sobre outras pessoas, é também aquela sociedade que tende a colocar a culpa na vítima: “ela estava de minissaia, por isto foi atacada e vaiada”. Isto é: a culpa foi dela, não dosatacantes. Dois outros fatores, como aponta a NSVRC, facilitam a existência de violência sexual: um sentido de que a dominação é fator predominante na construção da masculinidade, e a crença na sacralidade absoluta do espaço doméstico. Em outras palavras, “em briga de marido e mulher, não se deve meter a colher”.
como um bem de grande valia, O interessante deste ditado é que, como sabemos, muitas vezes a violência do marido contra a mulher ocorre até fora da casa. Então, seria como se o homem, cuja masculinidade foi alimentada da noção da sua superioridade, dentro de um sistema de glorificação da violência, sinta que o corpo da mulher é o seu espaço doméstico frequentemente, o homem ataca sua mulher até em público, e não admite que ninguém a defenda porque, no seu entender, sabemos de casos terríveis que ilustram esta realidade, infelizmente. Como muitos de nós podemos tristemente nos lembrar, houve um marido advogado aí no Paraná, há uns 30 anos atrás, que matou a mulher de ciúme, alegando que ela estava “tendo um caso”, se defendeu a si mesmo com grande estardalhaço e cobertura da mídia, conseguiu se eleger deputado por causa da fama que adquiriu. Com aquele caso, a sociedade paranaense estava dizendo (naquele tempo, pelo menos) que não tem problema matar a mulher, desde que o assassino seja bom de papo, jogue a culpa na vítima, e se proclame o “macho ofendido”. O que fazer então, para diminuir a violência doméstica, o estupro, a violência contra mulheres, e também crianças e idosos? Eu acho que a NSVRC está correta quando diz que simplesmente punir os criminosos não resolve a situação. Cada sociedade tem que tomar responsabilidade pelos fatores que podem ser controlados antes que o indivíduo chegue a pensar que não tem problema maltratar alguém que esteja sob seu poder. Dentro da família, por exemplo, cada vez que os pais tratem as filhas como cidadãs de segunda categoria, em comparação com os filhos, estão alimentando estas tendências. Na sociedade civil, cada vez que um homem maltrate sua mulher e seja “desculpado”, está criando mais violência. Então, para concluir, em briga de marido e mulher, todos estão envolvidos, quer queiram, quer não. A sociedade que aceita a violência é tão culpada como o perpetrador direto da violência. E as pessoas que assistem a estes ataques e não procuram de alguma forma proteger a vítima, também são igualmente culpadas. Assim, se você algum dia se deparar com um homem batendo em uma mulher, ou pais “castigando” os filhos brutalmente, tente fazer algo. Chame a polícia. Tente dissuadir o atacante até que chegue a polícia. Se aquela mulher, aquela criança, aquele idoso, aquela pessoa com capacidades mentais diminuídas é atacado na sua frente e você não faz nada, VOCÊ TAMBÉM É CULPADO/A. . Por isto, muitoela é coisa sua. Muitos de nós

 Americanas, Brasileira, e Norte Americana.

 
 

 

EVA PAULINO BUENO é Professora de Espanhol e Portugues, Literaturas Latino